O calor do amor
Depois daquele dia fatal, Fernandinho deixou o grupo, foi por
causa da morte de um cachorrinho de estimação de seu amigo morador de rua,
viviam debaixo de uma marquise que anexava a um túnel para pedestre desativado
ali a Rua Santa Maria em uma pista que passavam cruzando a cidade, mais adiante
dali a uns quarentas metros foi construída uma passarela com facilidade de
acesso ao outro lado da pista.
Aquele grupo de indigentes se acampava debaixo de uma
proteção que haviam construído para esperar um transporte coletivo que ladeava
essa pista rumo às vilas daquela cidade. O rapaz andarilho estava a rondar
aquela cidade em busca de um lugar seguro para ficar, não gostava de dormir
sozinho pelas aquelas vias, ouviam-se muitos casos de assassinato de andarilho
naquelas noites, ele muito se preocupava com esses atos covardes, tirar a vida
de um indefeso só por motivo banal.
Foi uma grande perca... perder seus amigos que sempre
acompanharam nas lidas cansativas de juntar recicláveis, mas teve que sair por
força dos amigos que diziam ser ele o causador da morte do cãozinho, mas o
rapaz era inocente, não foi Fernandinho.
Depois de quilômetros andados chegou
de frente de uma velha obra abandonada, pensou em entrar mais ficou com medo,
já era noite não podia adivinhar os perigos que poderia encontrar nesse local,
deu a volta pelo outro lado e foi observar direitinho, quando dobrou a esquina,
que virou para o outro lado da rua aí foi que ele viu que havia alguém se
acampando por ali, percebeu labaredas, tinha um fogo por ali, estava certo que havia
alguém se acalentando próximo às chamas, entrou e foi cumprimentando esses
povos sem teto.
- Oh amigo, estava passando por aí, vi um clarão aqui, entrei
só para dar uma olhada... Como vai vocês? (disse Fernandinho com ar de que está
forçando uma conquista de amizade.)
- Aqui estamos tudo bem na medida do possível, esse grupo já
está completo, é melhor você cair fora, já somos oitos acampados aqui, não tem
espaço para mais ninguém (senhor Alfredo disse com autoridade, se achava o
líder, queria ditar as regras no grupo de mendigo. (De cócoras e seu rosto bem
próximo às labaredas esfregava as palmas da mão, arrepiado e tremendo gelado, o
frio estava intenso.)
- Oh... deixe ficar seu Alfredo, Fernandinho eu conheço muito
tempo, gente boa (essa fala era de mulher, em meio ao escurinho foi dita
debaixo de algumas velhas coberta junto com umas meias dúzias de criaturas
deitadas entre o concreto gélido e algumas graminhas feito forro de dormir)
- Pronto Maninha, já me convenceu, vou deixar Fernandinho
ficar por aqui essa noite, que sacrifício eu não faço a você né? Minha
querida Maninha. Mas só essa noite, amanhã pode pegar o caminho de volta,
chispa já, suma dessa turma, aqui não tem pra mais ninguém. (O velho falou meio
contrariado, concedendo a chance de ele ficar só até amanhã)
Ele estava com o peito ferido, angustiado com sentimento de
rejeição, fazia parte de outro grupo, teve que sair às pressas, houve um
desentendimento, e um daqueles homens o ameaçava de morte caso ele persistisse
em acompanhar aqueles andarilhos, por isso procurava outra turma em que pudesse
acompanhar, poderia se encachar muito bem nesse novo grupo desses amigos, mas
parece que não foi bem recebido, seu Alfredo era um velho muito mal, ditava
regras e disciplinas muito rígidas, não era qualquer um que se adaptava aqueles
regimes, por isso aquele grupo nunca crescia.
O novato se afastou dos outros uns dez metros dos que já
estavam lá, achou um lugar bom, era debaixo de uma escada nessa construção não
acabada abandonada, colocou seu saco de tralhas ao chão, agachou e começou a
retirar de dentro objetos e roupas para fora de sua mala, tipo saco meio que
azul marinho, não estava muito limpo.
Seu Alfredo; o homem mal disse com autoridade ao Fernandinho:
- precisamos de comida, estamos com necessidade de matar a
fome desses nossos amigos aqui acampados, ele fica responsável para essa
obrigação, se é que quer mesmo acompanhar nossa turma, agora veremos se ele é
mesmo bom para conseguir as ajudas, conforme os resultados será um dos nossos,
pode ir a campo, ainda é cedo, hora que os ricos estão comendo, vejamos se você
consegue amolecer corações dessa gente que tanto esperdiça alimentos, muitos
deles até nos nega, mas quando é no outro dia cedo jogam aquelas enormes
tigelas de comidas que estragou no lado de fora da casa.
Certeza que ele teria um lugar para conseguir a boa comidinha
até quentinha, atravessou a pracinha, caminhou uns quatrocentos metros, ele
chegou a grande mansão, ali estava os corações bondosos, era de religiosos, mas
se tratavam de uma família de espíritas e católicos, sempre estavam com as mãos
estendidas para ajudar os necessitados. Por coincidência ou não quando esse
rapaz se aproximou da calçada lá vinha a doméstica a regar o pé de palmeira que
haviam plantado à alguns dias anterior.
A moça depois de jogar a água nas plantas foi logo
perguntando o que ele queria quando estava de pé em frente do portão.
- O que está fazendo aí rapaz?
- Preciso de comida, estou com fome, a senhora pode me
arrumar algo, nem que for um pouquinho para enganar o estômago?
- E como se chama o senhor? Posso saber seu nome?
- Sim... Eu me chamo Fernandinho, a senhora não se lembra
mais de mim? Já tenho vindo outras vezes aqui, até peguei muita sopa que vocês
me mandavam quando eu estava em no outro acampamento.
- Ah... Agora me lembro do senhor, do Fernandinho, nós
estávamos aguardando sua volta, até a patroa estava sentindo sua falta, fique
tranquilo, vou arrumar um pouco de uma sopa, tá uma delícia, comi uma tigelada,
aguarde um minutinho.
Seus olhares fixos naquela porta esperando que abrisse, e eis
que logo aproxima a senhora doméstica com uma grande tigela de sopa, quente que
até fumegava, o rapaz perguntou se hoje ia distribuir sopa para os irmãos de
rua, sentia a precisão de ajudar os amigos acampados ali próximo a uns
quinhentos metros.
- Precisa aguardar até as vinte horas dessa noite, pode
aguardar, estaremos lá, a proposito em quantos são vocês?
- Comigo já são nove, está bom, vamos aguardar, o vazio de
nossa barriguinha pede socorro. (disse Fernandinho)
- Trouxe essas roupas
para que você se agasalhe do frio, estão boas, foram usadas até poucos dias
passados, tome, é seu. (Disse aquela alma bondosa)
Ele vestiu aquele casaco, comeu aquela sopa que veio
por antecipação, agora ia aguardar as dez da noite que já faltavam alguns
minutos para presentear os amigos, queria ele chegar junto com o veículo que
fazia a distribuição, esperou um pouco e chegou ao grupo, enquanto que todos
perguntaram em uma só voz:
- Onde está a comida que você prometeu, não conseguiu?
- Consegui sim, já tá para chegar, só uns instantes, logo
chega.
Ao mesmo tempo em que se exigiam o combinado buzinaram lá à
frente, era o pessoal da distribuição, chamaram todos ali pra perto, fizeram
uma oração de agradecimento e foram repartido o saboroso alimento, até
guardaram um pouco para mais tarde, logo foram para a caminha de barriga cheia.
Agora Fernandinho ganhou a confiança do grupo, o sono veio
igual para cada um, acordaram muitos dispostos, de barriga cheia.
O rapaz andarilho pegou a caminhar naquela avenida, desceu a
ladeira, andou uns cinco quilômetros para chegar até ao seu antigos amigos de
jornada, todos saíram para a cata dos recicláveis, mas seu desafeto estava lá,
parece que meio adoentado, não se sabe se foi pela morte do animalzinho de
estimação, pode ser eles eram amigos inseparáveis; o homem e seu fiel amigo de
quatro patas, Peron acusava Fernandinho pela morte do cachorro, mas não foi
ele, queria explicar a ele que era inocente dessa acusação, mas parece que
Peron não queria desculpas, tinha que ser quem ele dizia, não tinha elementos
de provas, só acusava.
- Peron, como está?... Você Já melhorou meu amigo?
- Ainda não, sinto que estou fraco, eu não me alimentei,
dormi pouco, arrependi da briga que tivemos.
- Bobagem me dê aqui um abraço, somos amigos novamente, mas
esquecer de meu totó não consigo.
- Não, não, não matei seu cachorro, ele ainda está por aqui
por perto, sempre presente no coração amoroso de seu dono, o outro que te falou
que fui eu, mentiu, falou aquilo só para me meter em encrenca, não acredite.
- Vou provar que seu cão ainda está por aqui entre nós, vou
assoviar e chama-lo, veja lá.
O jovem indigente tinha poderes místicos, parece que
conversava com os bichos, pássaros, animais domésticos, ele chamava assoviando
pelo nome do cachorro, de repente veja quem vem lá, totó vinha em uma disparada
carreira, as orelhinhas estendidas para trás, línguas salivantes e seu rabinho
parecia um foguete.
- Meu deus, como que eu posso acreditar nisso, meu totó está
de volta (enquanto que o cão fazia a maior festa, lambendo até a boca de seu
dono, Peron retribuía os carinhos do animal, ficou muito contente e dizia.
- Amanhã vamos novamente encher nosso carrinho de tudo que
foi usado e que só serva para a reciclagem, não quero separar de você nunca
mais, meu belo e fiel amigo totó.
Fernandinho tocou suas costas com a mão, deu três tapinhas no
ombro do velho amigo e foi logo explicando o que ainda não estava muito certo.
- Peron meu amigo, tenho que dizer algo, você tem que aceitar
essas palavras que são duras, mas você tem que ser homem para não ficar triste,
seu totó não pode mais ficar aqui, agora ele está morando no céu dos
cachorrinhos, você tem que aceitar isso, meu amigo, despeça de seu amiguinho,
já está na hora dele ir embora, mas não chore, ele estará sempre no seu
coração, seu cachorrinho foi atropelado na avenida, lógico que nunca seria eu o
motivo dessa maldade.
O animalzinho foi saindo parece que estava chorando, rabo
entre as pernas e gania entre latidos de dores, e acabou por desaparecendo
atrás de uma pilastra de concreto.
- Quero que você volte para nosso grupo que é seu também.
- Já me acomodei em outros amigos, não voltarei mais,
Fernandinho seguiu o caminho de volta por aquela avenida,
quando ele colocou a mão nos bolsos do casaco, percebeu alguma coisa, retirou
do bolso, era um pacote de dólar juntamente com um belo relógio Suíço de
valores altíssimo, algo muito valioso, o rapaz acelerou os passos e logo estava
novamente de frente a casa dos milionários que lhes mataram sua fome, tocou a
campainha e falou no pequeno microfone e dizendo:
- Oi, vocês me deram aquele casaco, mas ele tinha grandes
valores no bolso, quero devolver, sou o Fernandinho, lembra não?
- Aguarde aí que a patroa está de saída e fala com você, é um
minutinho só.
- Dona Carmela ao passar pelo portão Fernandinho esticou o
braço e entregou a patroa tudo que achou nos bolsos do casaco que fora doado
ontem, a senhora agradeceu e deu a ele uma gorjeta, para seu Fernandinho era
uma bela quantia, agradeceu e voltou para junto a seus amigos.
09/6/2019/ Antherport.
UM PASSEIO PELA TERRA.
Eu venho de longe, das sombras da
eternidade, eu não conhecia a luz, havia perdido minhas lembranças, me encantei
com tanta beleza, agora vejo as cores limitando esses contornos nesses variados
desenhos, meu sentimento nesse momento é como se estivesse revivendo algo que
faz parte do passado, sensação de saudade, até parece que vivi aqui em outras
épocas, quem sabe?
Vejo!...uma casa no final dessa alameda, dentre tantas casas,
por que essa me causou tanta nostalgia, vou verificar de perto, o que foi
realidade para mim, hoje está transformando em um sonho em realidade, quando
parei de frente aquela casa, parece que minha memória foi ativada, senti com
uma explosão aqui dentro de minha cabeça, aquela casa tinha tudo a ver com meu
passado, os meus olhos retrataram aquela fotografia; o alpendre, a janela do
quarto da frente que era do meu pai e minha mãe, fiquei ciente, essa era mesmo
a minha casa antes de meinha passagem, eu vivi aqui quando criança, foi uma
morte prematura, cresci e me desenvolvi em outro cosmo além planeta terra, hoje
tenho dezoito anos pela contagem dos
mortais, me veio como impulso a sugestão de chamar, tocando essa campainha,
aguardei uns instante e logo apareceu do outro lado do vidro da porta uma moça
loira de olhos azuis de face bem delineada, confesso, as minhas carnes
tremulavam eu sentia que algo estava preenchendo meu corpo, essa moça tinha o rosto
muito parecido com o meu, fiquei chocado e muito emocionado revestido desses
sentimentos próprio desses terráqueos dessa esfera terrestre. Depois que abriu
a porta percebeu que esse moço parecia muito com ela, mas ficou preocupada,
sentiu que esse rapaz estava passando mal, ela achou que poderia ser um amigo
da faculdade, tem conhecimento que existe um amigo que estuda com ela que
parece muito com, não tinha muita certeza, fazia poucas semanas que havia
recomeçado as aulas, a turma era recente, mas porem não era bem assim.
A moça preocupada com estado de saúde do rapaz, levou o para
dentro de casa e serviu um copo de água bem geladinha para que ele se
despertasse desse passamento, ele se sentou e continuou com os olhos fechados
por alguns minutos, aos poucos foi se refazendo do susto e voltando ao normal,
abriu os olhos, nesse momento sentiu uma pontada de dor aguda no lugar do
coração, parecia que estava acordando de um sono.
Eloisa percebeu, ele estava com amnésia, não sabia explicar
de onde veio, nem para onde vai, mas sentia saudade de todas essas coisas
deixadas para trás, as surpresas era tão grande que ficou mesmo deslumbrado,
olhando para o teto, paredes, portas, sentiu na vontade de se levantar, pediu
para a moça se pudesse conhecer a casa toda, a moça permitiu, a primeira
vontade de olhar, foi o quarto de sua mãe, olhou e ficou muito triste, a moça
acompanhava ele pela casa foi mostrando tudo até chegou no quartinho de despensa;
onde guardava os objetos que estavam em desuso, ele percebeu que seu berço
ainda estava armado e seus brinquedos superlotava esse pequeno leito de dormir,
o carrinho de pedal e o super homem era os seus preferidos, a moça observava
que daqueles olhos azuis descia lagrimas em profusão.
Heloisa ficou preocupada com aquilo, chamou a mãe, as duas
ficaram com a mente cheio de perguntas sem respostas. Logo Augustinho deixa a
companhia de sua suposta irmã e segue para os fundos do quintal, o parquinho
com os balanços, por incrível que pareça ainda estava lá em meio um gramado
cheio de matos
Enquanto Augustinho estava a distância, sem ele saber mãe e
filha discute esse acontecimento. Dona Cíntia e sua filha Heloisa estão
chegando uma conclusão esse rapaz poderá ser a cópia de um filho já falecido a
pouco mais de duas décadas - era gêmeo
com você, assim foi narrando a história – Foi em uma tarde do final de um mil
novecentos e noventa e nove, sua tia, minha irmã como de costume saia pela
tarde para passear pela cidade, naquele dia ela resolveu que levaria Augustinho
com ela, iriam juntos até a sorveteria, fazia muito calor naquele quase final
de dezembro, Augustinho estava envolvido com suas brincadeira e não queria
acompanhar sua titia, ele insistia dizendo que não queria ir, mas por fim
acabou cedendo as persuasão, Emília acabou convencendo e o levou, percebia que
ele estava meio contrariado, mas lá ia titia Emília e Augustinho pelas ruas
daquela cidadezinha tão pitoresca, ela atrás do volante de seu carro de
fabricação nesse ano, passeava por essas ruas dessa estância turística, o pior
veio acontecer, quando Emília tentava atravessar a avenida, a mesma rodovia que
passava por dentro dessa cidade foi surpreendida com um caminhão carreta meio
que desgovernado sem freios, não respeitou o sinal vermelho e veio colidir na
lateral precisamente na porta do motorista... no carro de minha irmã, foi perca
total, os dois morreram no ato da colisão, perdi meu filho, seu irmão gêmeo com
apenas cinco anos de idade.
Enquanto o rapaz redescobria sua antiga morada, o papo mãe e
filha continuava.
- Esse rapaz, tem tudo de meu irmão, não seria ele um contato
além vida? Disse Heloisa para sua mãe.
- Verdade Heloisa minha filha, tenho experiência com
espiritualidade, estou percebendo claramente, esse rapaz é o Augustinho que
veio nos visitar, agora não sei como será o desfecho dessa história.
Logo chegou a noite, mãe Cintia arrumou uma caminha para que
ele dormisse aquela noite, no outro dia Dona Cintia teria que dar um fim nessa
história.
No outro dia bem cedinho, todos se levantaram para ver o
rapaz, mas grande foi o espanto, a cama estava vazia, quando dona Cintia foi
desfazer essa cama encontro debaixo do travesseiro um bilhete escrito em letras
bem grande:
- Heloisa minha irmã, eu sou seu irmão, não sei se mamãe te
falou daquele grave acidente ocorrido naquele dia, não percebi o impacto na
hora da batida, felizmente não sofri nenhuma dor por fraturas e perfurações de
órgãos, achei melhor assim que sofrer sequelas para o resto dessa vida como ser
humano, imagino essa família uma grande árvore de grande extensão de raízes
segurando esses galhos, frutos e flores, eu apenas fui colhido para a colheita
da eternidade, infelizmente ocorrido na minha mais tenra idade, como fruto,
ainda que nem amadurecida por completo nesse pomar feito esfera
terrestre.
Apesar de minha morada estar fixada em
outros horizontes, mas no oculto ainda estarei horas ou outras vezes nesse
grupo de irmãos, usufruindo da sombra refrescante dessa frondosa árvore feito
família.
Agora voltarei para minha eterna
morada para sempre.
(14/12/21/Antherport***

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