O VELHO CAMINHONEIRO.
(Antônio Herrero Portilho)
Foi naquele meio de manhã, mais ou menos dez horas. Descia com meu caminhão aquela estrada solitária, estava um pouco pesado, na carroceria ia uma máquina de beneficiar arroz que seria montada, além de outros implementos agrícolas para tração animal, este frete destinava a um senhor que morava em um pequeno patrimônio, um simples comerciante, já estava próximo, bem ali a uns cinquenta quilômetros, chovia e parava sempre em intervalos breves, muita enxurrada, mas não esburacou a estrada calçada de pedra, vivíamos em plena estação das águas, chovia muito nesta região.
Em plena ameaça de desabar um grande temporal, lá estava uma senhora caminhando sobre as margens dessa estrada, defendia dos pingos que já ameaçava caindo quando já se aproximava mais um pé d’água, chuva que não parava mais, o limpador do para brisa quase não dava conta de rapar todo esse aguaceiro.
Com um pano na cabeça, quer dizer; um embornal, tipo de sacola para carregar pequenos objetos, e caminhava um pouco que apressada, resolvi parar e dar-lhe carona assim que ela deu com a mão, parei o bruto e chamei para que esta pessoa entrasse para a cabine, logo se acomodou e perguntei para onde estava indo, disse que pretendia chegar até esse mesmo patrimônio ali bem próximo, perguntei seu nome, me informou.
- Meu nome é Filomena, Filomena, mas o povo por aqui me conhece como dona Filó, sou muita conhecida por estas redondezas, moro á muitos anos por aqui.
- A senhora saiu mesmo sabendo que ia chover, pensando bem esse pedaço de estrada é bem longa, consegue fazer esse trajeto á pé? Disse perguntando com admiração a senhora Filó; o senhor Alcebides.
- Eu precisava muito de alguns remédios caseiros, fui buscar algumas raízes ali naquela mata, saí bem cedinho de casa, também peguei carona quando vinha, cheguei ainda estava escuro.
Quanto a longa caminhada não teria problema, tenho uma nora que mora bem ali na curva da estrada, mora em meu pequeno sítio, quer dizer... De propriedade familiar, era só chegar passar o dia e talvez a chuva e depois do almoço, pegaria outra condução e voltaria para minha casa lá na vila, meu filho completaria este pedaço de estrada até chegar ao patrimônio, todos os dias o trator vai até o vilarejo para entregar o leite na cooperativa, aí me embarco de carona no trator.
-Muito bem dona Filó, a senhora gosta mesmo de botar o pé na estrada, já estamos bem próximo da casa de seu filho, caso a senhora queira parar por lá para fazer uma visita á seus netinhos, deixa que eu estacione lá bem na porta.
– Caso não for te incomodar faça isso para mim, acho que já está na hora do almoço, estou até sentindo o cheiro da comida, com a mão apertando a barriga de mostrando sentir fome.
- Está vendo, essas terras aí, já foram minhas, meu esposo foi dono disso tudo que você vê, eu morava bem ali na beira da mata, quando precisava de colher minhas ervas não era longe de meu alcance, vendemos uma boa parte desta fazendinha, deixei aquela gleba para meu filho que já casou-se, onde eles moram até hoje, no outro lado da estrada havia uma vila com mais de seiscentos moradores, tudo foi destruído, só restou àquelas marcas e sinais de como já houve gente morando ali.
- E os remédios? Como fará para atender seu amigo doente? Perguntou seu Alcebides interrompendo os relatos da senhorinha saudosa.
- Esse trabalho ficará para próxima semana, conforme foi combinado, foi um senhor que me procurou para que curasse seu filho que está muito doente, eu já sabia qual seria a cura para aquela doença, existe dessas plantinhas lá naquela mata, fui extrair raízes para fazer chá, e já estou com elas aqui em meu embornal.
– Interessante! Seu conhecimento com as plantas que curam, milita neste ramo á muito tempo? Perguntou com curiosidade seu Alcebides.
- É herança de família, de pai pra filho, de avôs para netos e ai por diante... Não cobro nada pelos meus trabalhos, eu os pratico por caridade, Algumas vezes pessoas me procuram, se curam e até me faz doações espontâneas, eu agradeço pelo valor, mas na verdade eu não faço minhas rezas pensando em lucros, fico feliz quando encontro essas pessoas que se curaram e depois vem me agradecer, só isso já me pagou tudo.
- Gostaria que só existissem pessoas como a senhora por este mundão á fora, precisamos praticar o bem e não olhar a quem, completou o pensamento de dona filó o senhor motorista condutor.
Der repente o caminhão caiu com os pneus em um buraco provocando um solavanco, vi quando o saco de pano caiu no assoalho da cabine expondo uma porção de velas luminárias, parecia que dona Filó retornava de um trabalho espiritual.
- Isso são velas dona Filó? Perguntou seu Alcebides com tom de desaprovação.
- É sim, além de colher meus remédios, também aproveitei para fazer uma oferenda á meu guia protetor; Caboclo.
Respondeu dona Filó com tom em acanhamento, meio que escondendo o rosto certo que ela seria desaprovada por essa atitude religiosa.
- Pode ficar á vontade, não se preocupe, não tenho preconceito de nada neste mundo.
Enquanto engrenava as marchas exigindo mais força no motor nesse trecho íngreme, disse assim a fim de conforta-la. - Pode ficar sossegado meu amigo, não faço mal a ninguém, nem por qualquer dinheiro que me pagues, eu sou da paz.
Reiterando procurando a confiança desse senhor.
Faço meus artesanatos, costuro, tricoteio, em renda e nas horas vagas também aguardo meus visitantes para encontros espirituais, pratico minhas caridades, já curei muitas doenças, também sou parteira, muitas pessoas que você vê por aí nessas fazendas e estradas passaram pelas minhas mãos na hora de nascer.
- Prazer senhora, meu nome é Alcebides, estou já a algum bom tempo trabalhando nessa rota, estradas, hora carrego sacarias e até todos os tipos de cargas, já vi muitos fatos por aqui nestes caminhos parece que essas estradas são mesmo cheios de coisas de outro mundo, sempre deparo com essas histórias verídicas, mas não tenho medo dessas coisas não, tenho ali no para brisa um retratinho de minha santinha protetora, tá vendo lá?
- Eu também tenho muita devoção a essa santinha, a imagem dela está lá no meu congado junta com meus pretos velhos e caboclos. - Quando eu estou em apuro sempre me apego á ela, e olha que sempre consigo me superar de qualquer que forem os obstáculos em minha vida disse seu Alcebides emocionado de fé. - Pronto!... Chegou á casa de sua nora. Frenei o bruto, dona Filó pulou da cabine enquanto seus netinhos vieram todos de braços aberto prontos para sentir o arrocho de um abraço.
A nora veio cumprimentar e agradecer pela visita, aproveitou para despedir de seu Alcebides que nesse momento deu partida e logo começou a se movimentar deixando rastos nessas estradas sertanejas.
Seu Alcebides recebe uma mensagem misteriosa. Os índios á beira da estrada.
Eu sentia umas dores localizadas á baixo das costelas, me incomodava muito, às vezes pensava que poderia ser mau jeito ao sentar para dirigir o caminhão, apesar de incomodar muito, não dava importância, achava coisa simples, mas ainda pensava que poderia agravar ainda mais.
Naquela manhã enquanto conduzia o bruto percebia as pontadas, poderia eu revelar esse meu problema para aquela senhora, mas resolvi ficar calado, sou meio incrédulo nessas coisas de benzer, sou mais medicina.
Enquanto eu rodava tranquilamente surge ao meio da estrada lá frente uma surpresa, uma tribo de índio a beira da estrada, um deles deu com a mão pedindo para que eu parasse, eu fiquei um pouco assustado, ninguém sabe a intenção destes selvagens, às vezes são agressivos, outra coisa, para mim é novidade encontrar índios nessas regiões, não estou entendendo, nunca se viu falar de tribos indígenas nestas localidades.
Parei o bruto bem ali em meio a tribo, falaram em línguas enroladas uns ao outros, assim como se estivessem fazendo reunião, um deles pediu para que eu esperasse, daí á pouco o chefe deles terminou sua ordem falatório e me aproximou para bem perto e me disse:
- Recebi um recado de dona Filó agora nesse momento, ela me disse para que o senhor procure dessa raiz... nome, anota aí, planta vai curar esses problemas que o senhor tem no fígado, só essa raiz pode lhe curar, procure lá na mata, tem muito dessas plantas.
Explicou o formato das folhas, o tamanho até o cheiro que exalava e a fórmula de cozer este unguento... Para falar a verdade eu já conhecia essa planta, ficaria fácil reconhece-la novamente.
O nativo insistiu para que eu anotasse, repetindo as palavras. Peguei meu caderninho de anotações diárias e estiquei o braço tomei posse de minha caneta que estava bem ali fixada no painel, usava para marcar quilometragem, troca de óleo, abastecimentos, peças de reposições e mais outras coisinhas.
O índio cacique disse o nome da raiz, anotei por obediência e educação, não dei muita relevância, mas pelo sim ou pelo não... Vamos lá.
Guardei o caderninho e a caneta no portas luvas do painel e segui viajem, fiquei com aquilo em mente, eu não havia revelado que eu sentia dores, não disse nada desses males, como dona Filó ficou sabendo?... Como esse recado chegou até o índio cacique?... Sabendo que já havia desembarcado dona Filó bem lá atrás na estrada, e ainda mais, esses índios que apareceram assim do nada, fiquei meio apreensivo com essa história, assim tão esquisita.
No destino; A entrega das mercadorias.
Toquei a minha viaje em frente, cheguei ao endereço do destino lá pelas três horas da tarde.
Demorou um pouco para localizar os chapas (descarregadores) esses ajudantes tiveram que vir dos que trabalhavam na roça. Agora Já descarregava as mercadorias juntamente com as peças e implementos agrícola, isso quando os ponteiros do relógio aproximavam das cinco horas da tarde, fiquei por ali aquele resto do dia e pernoite, deixei para pegar a estrada pela manhãzinha do dia seguinte, estacionei meu caminhão ali debaixo de uma enorme pé de paineira, tranquei e nem precisei tomar certos cuidado, ali ninguém mexia nas coisas alheias, raramente acontecia algum caso de furtos, vila pacata de mais, dessa vez não passei a noite na cabine do caminhão, fui procurar outro refúgio apesar de poder muito bem me acomodar nos confortos que havia nos espaços dessa boleia, e até um beliche, espaçosa e confortável, mas resolvi procurar uma cama em algum quarto por aí, dona Sofia, minha companheira nas horas de aflição, só estava aguardando fechar seu humilde estabelecimento para que nós fossemos dormir um pouco, eu estava muito cansado, precisava de uma cama bem macia e um par de ouvidos para escutar minhas reclamações, disse de minhas dores á baixo das costelas, ela tentou me ajudar assim da maneira que mais confiava.
Enquanto falava do remédio que poderia me curar eu acabei por pegar no sono, nem ouvi as conversas por inteiro, acordei bem de manhã, enquanto Sofia e seus caprichos na cozinha, havia até feito o café.
Corri até no caminhão que estava bem perto, liguei o motor e deixei funcionar por um pouco antes de pegar a estrada, isso é muito benéfico para a conservação do motor, deixar o óleo lubrificante agir por alguns minutos no motor até que a temperatura esteja na altura de pôr para rodar esses pneus nas estradas.
Despedi de Sofia, a beijei a face, ela me disse para que eu procurasse um médico para resolver esses problemas de saúde, foi o que fiz, logo que retornei á minha casa mais que depressa fui procurar um médico para consultar essas minhas dores, fiz os exames ai fiquei sabendo de uma notícia meio que ruim, disse que eu teria que fazer uns exames mais detalhados, precisos.
Havia um pequeno tumor em meu fígado, o médico me disse que poderia ser algo maligno, fiquei muito preocupado, acho que meu mundo caiu, muito depressivo, angustiado enlouqueci com o resultado do exame e logo fui tomar essas providências, mas também tinha outra opção, acreditar no remédio que a carona daquele dia me indicou através do cacique índio naquele dia misterioso, disse que essas dores só se curavam com o remédio daquela plantinha que agora comecei a pensar sério nesta possibilidade, no outro dia bem cedo peguei o meu carro de passeio e rumei a esses locais que dona Filó disse que tinha muitas das quais plantinhas, parei o carro a beira da estrada e fui logo correndo em direção da mata, quando adentrei naquela vegetação parece que já senti umas vibrações em meu corpo, como se tivesse algo me impulsionando, quando cheguei bem ao meio dessa reserva florestal algo me surpreendeu, havia muitas plantinhas daquela indicada pela dona Filó.
Fiz do jeito que ela me disse, arranquei um feixe, amarrei com cipó e quando eu ia saindo da floresta, pedi licença para os Deuses da natureza, para que me apoderasse destas plantas, prestei minhas orações assim como a senhora disse.
Depois de rodar muitos quilômetros cheguei de volta á minha casa com aquela convicção que a minha cura estava na planta, por esta semana que antecedia os meus exames médicos aproveitei para tomar o remédio indicado.
Com o caderninho de anotações em mãos pratiquei aquela receita do jeito que estava escrito assim como o cacique indígena me transmitiu á mando de dona Filó. Tomei por sete dias assim como houvera dito.
Quando fazia seis dias do tratamento caseiro, percebi que essas dores já haviam acabado, mas mesmo assim obedeci às ordens médicas, fui aos exames que me daria os resultados ao quais os médicos me suspeitavam, passei por uma bateria de exames, teria que retirar os resultados daí três dias, fiquei muito emocionado, apreensivo, mas confiava que o remédio da senhorinha havia me curado, pois já não sentia nenhuma das dores.
Pronto chegou o grande dia, logo de manhã retornei ao médico, ele me fez um pouco de suspense, disse palavras técnicas, foi fazendo rodeios aí ele me disse definindo:
- Não há nenhuma presença de qualquer que seja a natureza de doenças, o senhor está gozando da mais perfeita saúde. Pode pegar seu caminhão rodar por essas estradas com muita tranquilidade, o senhor não tem nada isso que os exames constam, saúde perfeita, está encerrada nossas consultas, vá em frente, passar bem.
05/03/2016/ 21:07 – Antônio Herrero Portilho
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